Líderes religiosos dos países BRICS se reúnem no Rio de Janeiro para fortalecer valores universais de paz e convivência

O Rio de Janeiro sediou ontem (4), no Hotel Grand Hyatt, dois encontros de grande relevância espiritual e diplomática: o “Encontro dos Líderes Religiosos Islâmicos dos Países BRICS” e, em seguida, a “VI Conferência Espiritual da Rota da Seda: o papel dos valores morais na aproximação entre povos e continentes”.
Os eventos foram promovidos pelo Conselho Religioso dos Muçulmanos da Federação Russa (CRMRF), com o apoio da Universidade Mohamed Bin Zayed de Humanidades (EAU) e da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (FAMBRAS).

A conferência reuniu lideranças religiosas de vários países, além de representantes intelectuais e de diferentes tradições religiosas. O objetivo central foi refletir sobre o papel dos valores espirituais e morais na preservação da identidade cultural, no fortalecimento da tolerância, moderação e convivência pacífica entre os povos.

Os palestrantes – 18 lideranças de 13 países, mediados por Rushan Abbyasov, vice-presidente do Conselho Religioso dos Muçulmanos da Federação da Rússia – destacaram que, diante dos desafios globais atuais, a humanidade precisa transcender diferenças e se unir em torno de valores universais como amor, misericórdia, justiça e solidariedade. A reunião foi apontada como uma plataforma internacional de diálogo e cooperação, rejeitando extremismos e ódio em prol de um futuro comum de segurança e estabilidade.
Entre os palestrantes estiveram o Grande Mufti Sheikh Ravil Gainutdin, presidente do Conselho Religioso dos Muçulmanos da Federação Russa; Khalifa Mubarak Al Dhaheri, reitor da Universidade Mohamed bin Zayed para as Ciências Humanas dos Emirados Árabes Unidos; além de representantes do Egito, Irã, Uzbequistão, Indonésia, China, África do Sul, Índia, Etiópia, Cazaquistão e República da Guiné. O Brasil esteve representado pelo presidente da FAMBRAS, Ali Hussein El Zoghbi, além de líderes cristãos convidados, como representantes da Igreja Católica, da Igreja Presbiteriana Unida e da Igreja Anglicana.

O primeiro a compartilhar sua mensagem foi o Grande Mufti Sheikh Ravil Gainutdin, presidente do Conselho Religioso dos Muçulmanos da Federação Russa. Ele lembrou que o mandamento divino que convida os povos a se conhecerem e conviverem se manifesta nos dias atuais por meio da aceleração da comunicação e da integração. “O que parecia impossível há apenas duas décadas — como este encontro de líderes religiosos vindos de diferentes regiões ou o fato de o Brasil ser hoje um dos maiores exportadores de produtos Halal no mundo — mostra a providência divina conduzindo a humanidade ao reconhecimento e à prosperidade compartilhada”.

Ele reforçou que o progresso humano só é possível pelo respeito à diversidade e pela cooperação baseada nos valores éticos e espirituais comuns estabelecidos por Deus. “A história mostra que nações que seguiram princípios morais prosperaram, enquanto aquelas que se desviaram deles caíram em decadência e destruição”, exemplificou. “Neste mês celebramos o nascimento do Profeta Muhammad, enviado para aperfeiçoar os mais nobres valores morais. Como líderes religiosos, cabe-nos defender os princípios espirituais e éticos, resistir ao mal e à corrupção, e trabalhar pela difusão da bondade, da justiça, da fraternidade e da paz”.

Em sua fala, o presidente da FAMBRAS ressaltou a importância do encontro e o papel dos líderes religiosos na construção de sociedades mais justas e solidárias: “É uma honra para a FAMBRAS participar deste encontro histórico que reúne líderes religiosos dos países membros do BRICS. O que nos traz aqui vai muito além de uma agenda religiosa ou institucional. Estamos reunidos para reafirmar princípios que são universais: o respeito à dignidade humana, o compromisso com a paz e a convivência entre diferentes culturas e tradições.”

Zoghbi também destacou a força do BRICS no cenário global e a oportunidade de fazer da diversidade uma riqueza. “Vivemos tempos de grandes transformações globais. O BRICS, hoje ampliado, representa mais de 40% da população mundial. São nações diversas em cultura, economia, história e religião. Esse mosaico é também uma oportunidade única de mostrar ao mundo que a pluralidade não é uma ameaça, mas uma riqueza.”

Por fim, o presidente da FAMBRAS conclamou os líderes religiosos a exercerem sua missão em favor da humanidade. “Neste espírito, os líderes religiosos têm um papel crucial. São chamados a promover valores que transcendem fronteiras, como o respeito às diferenças, o diálogo inter-religioso, a solidariedade entre os povos e a defesa da paz em meio às tensões.”

O Conselho Religioso dos Muçulmanos da Federação Russa (CRMRF) é uma das três principais autoridades espirituais muçulmanas na Rússia, com forte atuação no diálogo inter-religioso. Já o BRICS, atualmente composto por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Egito e Etiópia, reúne países emergentes que representam mais de 40% da população mundial.

Em 2025, o Brasil exerce a presidência rotativa do grupo, o que inclui a realização de eventos estratégicos em diferentes áreas — política, econômica, cultural e religiosa —, reafirmando o compromisso do país em promover cooperação e diálogo multilateral.

Confira trechos de algumas mensagens compartilhadas por lideranças religiosas durante a conferência

“As religiões continuam sendo portadoras de uma mensagem de paz, de compaixão e de esperança. Elas carregam em sua essência o chamado para unir comunidades, consolidar laços sociais, apoiar os necessitados e promover a justiça. Essa é também a mensagem da Declaração de Abu Dhabi sobre a Fraternidade Humana, assinada em 2019, que se tornou referência global para a convivência pacífica e a solidariedade entre os povos.

Assim, reafirmamos juntos que os valores espirituais e morais são o fundamento para sociedades fortes, para famílias estáveis, para juventudes inspiradas e para nações seguras. Eles são a base sobre a qual se constrói o futuro da humanidade”.
Khalifa Mubarak Al Dhaheri, reitor da Universidade Mohamed bin Zayed para as Ciências Humanas dos Emirados Árabes Unidos

“Somos obrigados a reconhecer que os fanatismos são protagonizados também por pessoas religiosas, sem excluir os cristãos. O radical age com ódio, com rancor, com sentimento de vingança, com desejo de eliminação. A religião, neste sentido, aprisiona, reduz, e se torna inimiga de uma vida espiritual. O Papa Francisco bem colocou na sua carta encíclica” Fratelli Tutti”, escrita com a ajuda do grande Imã Al Tayebe, que aquele que vai construindo muros a sua volta, fatalmente vai acabar prisioneiro dentro destes muros. Não terá a visão dos outros, nunca olhará o mundo sobre diversos e variados prismas, mas tão somente olhará para o muro. Não irá nunca apreciar a riqueza e a beleza das sementes de uma vida fraterna, experimentada com o outro”.
Padre Nelson Augusto dos Santos Águia, secretário da Comissão Arquidiocesana de Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso da Arquidiocese do Rio de Janeiro

“Vivemos um momento delicado da história, marcado por guerras, divisões e crises humanitárias severas. Assistimos também a um preocupante desgaste das estruturas éticas e morais, ameaçando a coesão social e a paz mundial. Diante desse cenário, vozes de ódio e de extremismo — religioso e secular — se levantam, ampliando as divisões entre os povos. Paralelamente, atravessamos uma revolução tecnológica acelerada, com destaque para a expansão da inteligência artificial. Reconhecemos os benefícios dessas ferramentas, mas alertamos para a necessidade de orientar seu uso com responsabilidade ética, a fim de que sirvam ao bem da humanidade, e não à destruição de valores. Este cenário exige de nós, líderes religiosos, unidade de esforços para conter os perigos que ameaçam nossas sociedades e a humanidade como um todo. A solução não virá senão pelo retorno aos valores espirituais e morais que são a essência de todas as religiões — valores que sempre iluminaram a humanidade nos momentos de crise.”
Ibrahim Negm, Conselheiro Sênior de Sua Eminência, o Grande Mufti do Egito

“A religião não deve ser instrumento de divisão, mas fonte de moralidade, compaixão e unidade. No Islam, viver ao lado de pessoas de outras crenças não é apenas possível, mas necessário para a construção de uma sociedade justa e harmoniosa. A fé islâmica ensina respeito ao próximo, justiça nas relações e bondade para com todos, independentemente de sua religião. Nossa tarefa como líderes religiosos é construir pontes, promover o diálogo e conduzir nossas comunidades para a convivência pacífica. Assim, serviremos não apenas às nossas tradições de fé, mas a toda a humanidade”.

Hussain Aboobacker Punathum Kuzhiyil, presidente do Malabar Educity, Kerala, Índia

“Os valores morais constituem o alicerce da vida humana e da conduta diária das pessoas em suas relações sociais. São valores universais, compartilhados por todas as culturas e religiões, que se traduzem em princípios como justiça, liberdade, igualdade, fraternidade, honestidade, lealdade, respeito, tolerância, paciência e solidariedade. Eles são a base para a formação da personalidade, para a educação das novas gerações e para o progresso das sociedades. O Islam deu grande importância a esses valores, que são a essência da mensagem profética. O Alcorão ordena a união entre os fiéis: E apegai-vos todos juntos ao cordão de Deus e não vos dividais” (3:103). Hoje, mais do que nunca, precisamos fortalecer a cooperação entre povos e religiões, e enfrentar juntos as causas da corrupção, do mal, do ódio e da violência. Precisamos reforçar o espírito de convivência, amor e paz entre os seres humanos”.

Anwar Mustefa Mahmud, Chefe da Diretoria de Educação e Serviços Sociais do Conselho Supremo de Assuntos Islâmicos da Etiópia

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